Para inaugurar o bloguinho da Frô, trouxemos um assunto polêmico e mais do que necessário: a relação que temos com o nosso corpo.

Não é de hoje que nós, mulheres, sofremos pressão para alcançar não só a perfeição estética, mas também o padrão ideal de “mulher perfeita”: aquela que obedece, não se impõe, cozinha bem, deixa a casa limpinha e cheirosa, roupas alinhadas, comportamento adestrado e sempre muito “adequado” ao agrado alheio, de bom humor e recebendo insultos com um belo sorriso feminino no rosto.

Que se dane tudo isso, não é mesmo? Afinal, em pleno 2026 somos empoderadas, muita coisa mudou e hoje seguimos nossas próprias escolhas e desejos… Gostaríamos de concordar com isso, mas a realidade é bem distinta da falsa bandeira de “girl power” que vem sendo levantada.

Ainda hoje, mulheres de todas as idades, belezas e biotipos parecem ter uma imagem distorcida do próprio ser, seja cabelo, unhas, pés, formato do rosto, tamanho da orelha, diâmetro da cintura, altura, tom de voz, entre tantos outros questionamentos. Parece que a autocrítica nunca acaba: sempre há algo para melhorar, mudar, mexer… e nunca chega o momento de acolhimento. De olhar para si mesma com amor e cuidado, com a gentileza que ofertamos o tempo todo para agradar o ego alheio. Somos ensinadas a sofrer e “melhorar” all the time, e continuar buscando a perfeição inexistente de novo, e de novo, e de novo.

Não vamos ser hipócritas: é claro que a gente quer se sentir bonita, bem, saudável e suficiente. Nem entraremos no ponto da saúde aqui, pois já é mais do que comprovado que variados tipos de corpos podem ser saudáveis igualmente, independentemente de estarem dentro ou fora dos padrões comerciais. (Obesidade e magreza extrema devem receber atenção diferenciada quanto à saúde e não entram na discussão estética aqui: há casos que precisam, sim, de acompanhamento rigoroso por motivos clínicos, e incentivamos esse cuidado com a saúde, apesar de abraçarmos as diversidades corporais.)

Mas, voltando para o lance estético: você já parou para se perguntar até que ponto tudo isso é por você? O quanto dessa cobrança de perfeição é para satisfazer o seu próprio bem-estar? O quanto você tem que mudar em si para se encontrar de verdade? Tudo isso te faz bem ou você está se colocando num lugar de culpa por não atender a um padrão imposto por uma sociedade machista e excludente?

Dados preocupantes sobre as buscas mais acessadas no Google no Brasil no último ano (2025–2026) mostram termos como “quanto custa o Mounjaro” (em 4º lugar na busca “quanto custa”), “chá para emagrecer”, “Mounjaro de pobre”, “emagrecer rápido” e “como ficar mais atraente” como pesquisas crescentes e frequentes no buscador. A pressão pelo peso e pela beleza ideal tornou-se uma preocupação rotineira de mulheres, principalmente as mais jovens, substituindo fortemente espaços importantes de lazer, autocuidado mental e até mesmo descanso, ocasionando um termo recente, mas que vem se destacando cada vez mais quando o assunto é saúde mental: Beauty Burnout (esgotamento da beleza).

Vamos deixar mais abaixo alguns prints com esses dados coletados no dia 23/01/2026:

Certo, agora você tem alguns dados e um panorama geral do cenário, mas isso ainda não te convence de que estamos num mundo cada vez mais doente e você continua se achando imperfeita e insuficiente. Então temos uma notícia não muito legal para você: isso ainda não mudou como deveria e você vai continuar sendo direcionada a pensar exatemente isso, pois perfeição é comercial e o que é comercial vende, simples assim!

Essa imposição de corpo e modo de vida feminino perfeito foi instalada no nosso subconsciente há décadas. Dia após dia, a cada novela, filme, série, reel, story, revista, loja… tudo, absolutamente TUDO, fica nos alertando sobre como devemos agir e ser. Desde aquele comentário de uma tia distante sobre o seu peso até a artista que você idolatra, tudo reforça, como um LED piscante, que você precisa atingir um ideal utópico.

Se livrar completamente desse condicionamento é, arriscamos dizer, quase impossível. Como exemplo, temos mulheres como Beyoncé, Ariana Grande, Isis Valverde, Winona Ryder, entre outras, fornecendo entrevistas em que falam abertamente sobre pontos de autocobrança estética, pontos que nós, meras mortais, consideramos ridículos e inexistentes. Percebe a pressão e o quanto esse tipo de imposição afeta nossa autopercepção?

O ponto aqui não é sobre mudar para se sentir bem. É sobre o limite dessa mudança.

Quanto mais temos que agredir nosso próprio corpo e nossa existência para suprir algo que não vem de uma necessidade própria? Você acha que consegue enxergar com clareza o que é aceitável ou não fazer com o seu corpo para chegar a um modelo ideal? Você consegue distinguir o que faz por você ou para se encaixar em um padrão? Até onde você está disposta a ir para alcançar algo inalcançável?

Pense nisso: essa casca que você chama de corpo carrega algo imutável e insubstituível. Carrega sua essência, o seu ser único, raro e exclusivo. Aqui na Frô, a gente acredita que a vida é como uma lingerie: não é sobre agradar ninguém, é sobre se sentir confortável na própria pele, do jeito que você é. Seja mais gentil com você mesma!

Cuide-se, beba água, acompanhe sua saúde e seja feliz, amiga. A vida é muito curta para viver sempre em prol do ideal do outro e longa demais para não se sentir bem na própria pele :)


Texto: Brenda Garcia Medeiros de Lacerda
Foto de capa: Roberto Hund